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stefanyemian
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Anuncio Os malefícios do crossdressing - Pate 03

em Ter 23 Out 2018, 17:27
Quanto mais tempo passa, mais o cérebro é afectado. Ora isto é uma coisa que aprendi muito recentemente, e que explica muita coisa (pelo menos para mim). Na maior parte das pessoas trangénero, a primeira reacção é a de negação e de rejeição. Hoje em dia, felizmente, cada vez há mais informação e apoio (ainda não é perfeito, mas para lá caminhamos); mas não há tanto tempo atrás, os temas da transexualidade eram tabu, seja na escola, seja em casa, e muito menos um jovem — especialmente adolescente — teria coragem de falar sobre o assunto com o seu médico. A vergonha era grande demais. E havia, claro, o risco de violência doméstica.

Assim, todos estes sentimentos e emoções normalmente são reprimidos. Por vezes, essa repressão pode ser tão profunda que a pessoa simplesmente se «esquece» de que estes sentimentos sequer existam. Acaba por viver o resto da sua vida, sentindo-se sempre, de alguma forma, «inadequada» ou «inadaptada», mas não compreendendo muito bem porquê.

Aqui entra outro mecanismo compensatório do cérebro: a capacidade de alterar percepções, e de criar «normalidade» onde esta não existe. Porque uma pessoa não pode estar constantemente infeliz, o cérebro tenta criar situações artificiais — no sentido que não correspondem à realidade — que dêem a sensação de que «tudo está bem». Isto, obviamente, não se limita à disforia de género, mas é um mecanismo frequente em muitas condições que depois, mais tarde, provocam todo o tipo de doenças mentais. Uma grande dificuldade de muitas pessoas em tomarem a decisão de pedir ajuda médica é porque acham que estão «normais», mesmo que toda a gente que conheçam pensem precisamente o contrário!

Os mecanismos de repressão contínua criam, pois, uma espécie de realidade alternativa, onde o indivíduo tem a sensação de que tudo está normal, tudo está na mesma, e que aquilo que percepciona é, efectivamente, a realidade. Isto é particularmente evidente nos casos de depressão clínica, em que uma pessoa perde a volição, mas que considera isso absolutamente normal (encontra todo o tipo de explicações e desculpas para isso, como a fadiga, por exemplo). Mas também em casos de ansiedade pode surgir um desconforto com a realidade que resulta em agressividade, especialmente em agressividade perfeitamente irracional para com situações (ou pessoas). Aqui o próprio auto-justifica-se dizendo que «tem mau feitio».

Evidentemente que o inverso não é verdade, ou seja, as pessoas podem realmente ter mau feitio sem haver uma condição clínica psicológica, mas sim apenas uma faceta da personalidade, que nada tem a ver com o «mau funcionamento» do cérebro!

Mas no caso das pessoas transgénero, pois, o que temos é realmente um cérebro «avariado», no sentido em que bioquimicamente tem marcadores químicos que supostamente correspondem a um género diferente do do corpo; independentemente do que a pessoa conscientemente pensa sobre o assunto, o cérebro irá tentar «compensar» esta assimetria entre cérebro e corpo criando mecanismos de compensação. Ao contrário de outras situações traumáticas, que normalmente são episódios isolados no tempo (mesmo que recorrentes e frequentes), esta condição do cérebro é permanente e constante, pelo que o cérebro não tem outra forma de lidar com a situação senão criando novos mecanismos de compensação. Alguns deles visam minimizar a discrepância entre cérebro e corpo; outros alteram significativamente os estados de humor. O certo é que estes mecanismos instalam-se muito cedo e perduram durante muitos anos. Nalguns indivíduos, a disforia é sentida de forma tão intensa que apenas o suicídio — ou a transição — podem proporcionar «alívio». Nos restantes, existem mecanismos de compensação em maior ou menor grau. Todos estes, contudo, contribuem para um funcionamento alterado das percepções do cérebro.

Ou seja, estamos a falar de dois níveis diferentes. Ao nível bioquímico, encontramos alterações — possivelmente criadas pelos tais factores embriológicos a que referi anteriormente — que são físicas e inalteráveis após a maturação do cérebro em ambiente embriológico. Ao nível mental — aquele de que nos apercebemos, consciente ou inconscientemente — surgem mecanismos de compensação, como a negação, a repressão, a alteração de percepções, e, no limite, a ansiedade e a depressão, com ou sem desejos de suicídio. Estes últimos mecanismos, apesar de operarem ao nível da mente, têm evidentemente repercussões sobre a parte física do cérebro. Como expliquei anteriormente, a libertação de certas substâncias químicas — como a serotonina, mas também o álcool — têm a capacidade de alterar o funcionamento do cérebro. São é, em geral, mecanismos temporários (ou seja, após o efeito dos mesmos, o cérebro reverte para o funcionamento habitual). Mas há mecanismos mais ou menos «permanentes» em que um cérebro, desesperado por «se sentir bem», procura caminhos alternativos para receber as doses de serotonina que tanto deseja.

Isto nos casos como o meu — depressão atípica — é muito visível: toda a energia que possuo, toda a vitalidade, toda a volição, está direccionada para o crossdressing, em que posso, pelo menos temporariamente, eliminar a discrepância entre cérebro e corpo, e deixar que a serotonina «alimente» o cérebro, e me deixe a mente em paz. Mas o meu cérebro bloqueou todas as restantes formas de activação de serotonina — todos os «caminhos» estão bloqueados, por assim dizer — o que significa que não consigo fazer mais nada (tal como na depressão clássica). No entanto, acho isto perfeitamente normal (percepções alteradas).

Estas situações mentais, sejam a ansiedade, a depressão, a agitação, etc. são, no entanto, tratáveis, assim como todos os estados mentais resultantes de repressão ou trauma. E isto porque se tratam de alterações ao funcionamento do cérebro adulto (no sentido em que se trata de um cérebro já formado, após o estágio de desenvolvimento embrionário), que podem ser revertidas com uma combinação de medicamentação e terapia. Em essência, significa que os «caminhos» criados pelo cérebro como métodos de compensação para lidar com determinada situação podem ser alterados — porque o cérebro é plástico — e revertidos para um estado de funcionamento normal.

O que infelizmente não se pode fazer é alterar aquilo que foi condicionado a nível embriológico. Isso seria como acreditar que poderíamos treinar um gato a pensar como um cão: uma vez formado o cérebro do gato, o gato pensará sempre como um gato.

Os malefícios do crossdressing, em resumo
Embora existam evidentemente imensas razões para uma pessoa fazer crossdressing, a maioria das quais relacionadas com alguma forma de fetichismo sexual (seja de objecto — a roupa — seja de comportamento), nos restantes casos é plausível acreditar (como pensa uma amiga minha!) que a origem do desejo de crossdressing esteja associada a uma forma de transgenderidade, expressa em determinado grau de disforia de género. Sabe-se hoje que o comportamento dos dois géneros binários não é meramente social, como estava em voga afirmar nos anos 1960, altura em que o paradigma comportamental (behaviourism) era predominante e pensava-se que «explicava tudo».

Hoje sabemos que não é assim. Há mecanismos bioquímicos que alteram um cérebro durante a sua fase embriológica para que este assuma aquilo que chamaríamos identidade de género. Não é bem claro, e talvez não o seja durante muitos anos, exactamente como isto funciona. O certo é que existe um desiquilíbrio, uma tensão, uma disfunção entre a forma como o cérebro deveria funcionar — de acordo com o resto do corpo — e como efectivamente funciona. E isto não pode ser alterado, uma vez terminado o desenvolvimento embriológico do cérebro.

Em compensação, há, evidentemente, partes do cérebro que definitivamente se podem alterar com o tempo. Se não fosse assim, não poderíamos aprender nada! Por sua vez, sabemos igualmente que quando há lesões no cérebro, seja por que razão for, este consegue compensar parcialmente os defeitos da zona lesionada (é por isso que muitas pessoas recuperam razoavelmente bem de AVCs, embora seja um processo que possa levar bastante tempo).

Podemos entender a disforia de género como uma espécie de «lesão cerebral», no sentido que há partes do cérebro que deveriam estar a funcionar (as que proporcionam a identificação entre o género do cérebro e o género do corpo), mas que não estão. Em consequência disso, o cérebro procurará «compensar» estas falhas no funcionamento do cérebro. Em certa medida, aquilo que uma pessoa com disforia de género sente é o seu cérebro a tentar compensar as falhas. É isso que lhe causa mal estar, distúrbios, ansiedade, depressão… e que pode levar ao suicídio. Porque ao nível consciente, aquilo a que nós vulgarmente chamamos de «mente», não temos noção dos «níveis inferiores», ou seja, da rede neuronal estabelecida pelo nosso cérebro. Não nos apercebemos de como é que é suposto um cérebro funcionar; e, pior, na maior parte dos casos, nem sequer nos apercebemos de que o cérebro está a funcionar mal.

É vulgar dizer-se que uma pessoa estúpida é aquela que pensa que é inteligente; enquanto que uma pessoa inteligente questiona sempre a sua própria inteligência (como dizia Sócrates — o filósofo grego, não o político… — só sei que nada sei). Isto tem a ver como os respectivos cérebros funcionam: a capacidade de auto-análise de uma pessoa pouco inteligente é notavelmente inferior, mas, para ela, a percepção que tem de si própria é de que é uma pessoa «mais inteligente que a média». Da mesma forma, a maior parte das pessoas com demência podem não se aperceber da demência que têm — embora nalguns casos isso não seja verdade, obviamente (podem, por exemplo, reparar que se esquecem mais frequentemente das coisas). Regra geral, um cérebro «avariado» criará mecanismos de compensação que darão a percepção de que está tudo bem.

Um problema no diagnóstico da disforia de género é justamente esse. No caso de transexuais que se manifestam logo desde a tenra idade, e que, graças a uma maior disponibilidade de informação hoje em dia (assim como uma maior aceitação social), permitem à pessoa começar a sua transição na adolescência («atrasando» deliberadamente a puberdade com um tratamento hormonal, permitindo então depois a transição para o género com que se identificam), pode haver apenas um período mais ou menos longo em que a pessoa rejeita furiosamente o género que lhe foi atribuído, mas que rapidamente (medido em poucos anos) corrige a situação — cérebro e corpo passam a estar de novo em harmonia, e os sintomas de disforia de género (como a irritabilidade/ansiedade ou a depressão) desaparecem em pouco tempo.

No caso de pessoas que reprimem fortemente a sua disforia de género (pelas mais diversas razões, sendo no entanto a mais comum a falta de informação — a maioria das pessoas que tem disforia de género não sabe o que tem, só sabe que os seus sentimentos e pensamentos «não são normais» comparado com os dos amigos ou irmãos, e tem vergonha de perguntar), cria-se aqui um problema adicional, mais grave. Estamos efectivamente a forçar o cérebro a tentar funcionar «como deve ser» — através da repressão e supressão dos sintomas de disforia de género — e fazemo-lo durante anos ou décadas. A páginas tantas, esta constante repressão e supressão vai deixar «marcas»: essencialmente estamos a pegar num cérebro já «avariado» e a «avariá-lo» ainda mais! Ou seja: à custa de tentar forçar o cérebro a harmonizar-se com o corpo e com o género que nos foi atribuído à nascença — com o qual o cérebro não se identifica, mas que conscientemente rejeitamos essa não-identificação — podemos potenciar outro tipo de problemas, fruto do constante «treino» a forçarmo-nos a ser aquilo que não somos.

Não quero com isto dizer que as pessoas não se podem mudar, ou que não é possível, de certa forma, mudar a nossa atitude mental — se não fosse de facto possível essa mudança, não só a terapia psicológica não funcionaria, como nem sequer os medicamentos para as doenças mentais teriam qualquer efeito. Sim, é possível mudar a forma de funcionamento do cérebro, e até de maneira bem eficaz: basta pensar que todo o nosso processo de educação escolar é uma forma de alterar o funcionamento do cérebro. Toda a aprendizagem, seja do que for — desde matemática a andar de bicicleta, a tocar um instrumento, ou a dançar — é baseada em mecanismos que inculcam no cérebro novas interconexões neuronais e que o fazem funcionar de forma diferente. Isto é normal, e ainda bem que assim é, caso contrário seríamos completamente incapazes de aprender o que quer que fosse!

Da mesma forma, podemos alterar certos aspectos da nossa personalidade através do treino mental. Costumo contar como aos 15 anos era uma pessoa terrivelmente tímida, e, através de um esforço tremendo, consegui libertar-me dessa minha timidez, pelo menos até um certo ponto. Outras pessoas conseguem corrigir defeitos na fala, ou certas tendências habituais que possuem, apenas através da aplicação de técnicas apropriadas para efectivamente alterar a forma como o seu cérebro funciona.

António Damásio. 2008. Wikipedia.
António Damásio (2008). Fonte: Wikipedia.
Mas há um limite à plasticidade do cérebro. É justamente quando começamos a avançar para aspectos que têm a ver com a própria identidade que as coisas se complicam. Identidade é daquelas coisas complicadas de explicar do ponto de vista das ciências da mente e do cérebro. Gosto de uma teoria proposta pelo nosso neurocientista António Damásio, que explica que guardamos todos os momentos na nossa memória com uma auto-referenciação do corpo: ou seja, a nossa memória não são apenas imagens, sons, sabores, etc., mas todos estes «momentos de memória» incluem também uma indicação onde é que o nosso corpo estava no momento em que «capturámos» uma memória. Podemos não nos aperceber disso, porque ao relembrar a memória, normalmente não nos apercebemos da nossa «presença» nessa memória (tal como no dia-a-dia não nos apercebemos da nossa presença constante, pois ela está sempre lá). Mas aparentemente esta auto-referenciação está sempre lá (António Damásio conta de casos em que certas pessoas, devido a danos cerebrais, perderam essa referenciação: têm memórias, mas não se identificam com elas, é como se estivessem a ver um filme — ou como se as memórias pertencessem a outras pessoas). Alegadamente, pois, é esta sucessão de auto-referenciação presente em todas as nossas memórias que nos dá uma «sensação de identidade» — o elemento condutor, ou ligador, que conecta as memórias entre si.

Ora para este mecanismo funcionar — o da auto-referenciação do corpo — há certas áreas do cérebro que têm de funcionar (tal como António Damásio observou, quando a auto-referenciação não está presente nas memórias, a pessoa «perde a identidade» de quem é — existe apenas no momento presente, sem noção de continuidade com o passado). É aqui que entra o problema da disforia de género: a auto-referenciação do corpo está «avariada», pois o cérebro acha que o corpo não tem o género de acordo com o do cérebro, em maior ou menor grau. Obviamente que só posso falar por mim mesma, mas a minha mulher já reparou que é estranho como eu tenho poucas memórias de infância — quase nenhumas, de facto, e as poucas que tenho não sei se são memórias falsas (coisas que me contaram tantas vezes que acabei por criar a minha versão dos acontecimentos e penso que são memórias reais) ou não. Só começo a ter algumas memórias reais, bem claras e distintas, mais ou menos a partir dos 15 anos, com algumas excepções, pois foi a partir dessa altura em que comecei seriamente a preocupar-me com a razão pela qual me imaginava, em sonhos (voluntários ou involuntários), sempre como mulher. Uma memória anterior a essa, por exemplo, é a do primeiro dia em que me masturbei, provavelmente com 11 ou 12 anos, em que a minha «fantasia» (se é que lhe posso chamar isso) era imaginar-me com o corpo de uma mulher — durante anos e anos, só assim é que conseguia masturbar-me com orgasmo, com raríssimas excepções.

Embora não tenha discutido estes pormenores com muita gente, pelo que não posso fazer grandes comparações, especulo que no meu caso a disforia de género tenha «baralhado» ou «avariado» o mecanismo de auto-referenciação nas memórias, e isso, como disse, está directamente ligado à sensação de identidade. Como o meu cérebro não se identifica perfeitamente com o meu corpo, esta auto-referenciação ficou um pouco baralhada, e o meu cérebro, a um nível subconsciente, não sabe muito bem o que fazer das memórias — é quase (mas não bem) como se fossem memórias de outra pessoa.

Também por várias razões (talvez distintas, talvez relacionadas) sempre tive um problema de auto-imagem: quando me olho ao espelho, acho-me monstruosa, seja na minha versão masculina, seja na feminina. A feminina é mais agradável de ver, claro está, e há pequenos momentos em que essa sensação de «monstruosidade» desaparece. Mas habituei-me de tal forma a achar o rosto no espelho odiosamente deformado que não é possível, conscientemente, mudar essa opinião àcerca da minha pessoa. Quando vejo fotografias minhas de quando era pequena, essa sensação é ainda mais forte: ainda me acho mais horrorosa enquanto nova, e há um fenómeno de distanciação — em certa medida, é como se o meu cérebro me dissesse que aquela pessoa não sou eu, ou que não devia ser eu (o que por vezes me faz involuntariamente corar de vergonha quando vejo fotos antigas minhas, embora não haja nenhuma razão lógica ou racional para que isso aconteça). Acredito que tudo isto esteja ligado à auto-percepção «avariada» do corpo, que tem influência sobre a identidade. Há aqui um mecanismo biológico que devia estar a funcionar a 100% — que funciona a 100% na esmagadora maioria das pessoas — mas que no meu caso não funciona.

Como tenho referenciais externos que me influenciam — a sociedade dita-me o comportamento de género que devia ter, através de exemplos dados por terceiros — há aqui uma tensão entre o que é esperado que eu seja (devia comportar-me como um homem biológico no papel social masculino) e aquilo que o meu cérebro me diz que devia ser. Como isto não é uma coisa recente, mas sim algo com que lido há pelo menos 30 anos (e provavelmente mais), a minha mente anda baralhada há muito tempo: por um lado, há uma «dissonância» entre corpo e cérebro, pelo outro lado, há décadas a tentar conscientemente «forçar» o meu cérebro a funcionar correctamente, reprimindo todas as sensações, emoções, e pensamentos que tenham a ver com essa «dissonância». No dia-a-dia, não posso estar constantemente a pensar que estou a viver no corpo errado, senão não consigo fazer mais nada (e, de facto, esse é justamente um problema que surge nas pessoas com disforia de género grave). Logo, «forço-me» para não pensar nisso. E faço-o há décadas…

A consequência, claro, é que esta repressão e supressão constante vai conduzir a estados de mente alterados e que não são saudáveis — é como se estivesse a criar camadas e camadas de «avarias» em cima de um cérebro que, já por si só, está «avariado» de raíz. No meu caso, isto conduziu a uma depressão atípica, ansiedade, e outros problemas do género. Levou muito tempo a chegar a este ponto, claro está, e cada pessoa será diferente e poderá reagir de forma diferente: julgo que a maioria das pessoas que sofram de alguma forma de disforia de género, na realidade, consegue sobreviver durante toda a sua vida sem «avariar» o cérebro de vez, ou seja, sem que tenha quaisquer sintomas de outras perturbações mentais. E estas pessoas todas, evidentemente, escaparão sempre às estatísticas — nunca saberemos quem são ou quantas são.

Como «consertar» o cérebro…
Há muitas causas para o crossdressing, e a disforia de género é apenas uma, e muito provavelmente — a acreditar nas estatísticas — é a menor delas todas. No entanto, o impedimento (social, familiar…) de poder fazer crossdressing com a frequência desejada pode causar perturbações, como a ansiedade ou mesmo a depressão. É por isso que o diagnóstico destas situações tem de ser feito por um especialista (em Portugal, de sexologia clínica) — é que os sintomas podem ser os mesmos (ansiedade, depressão), em maior ou menor grau, mas a causa pode ser diferente.

Nos casos em que a causa não é a disforia de género, o cérebro pode ser «consertado» com relativa facilidade. Podem existir causas traumáticas, muitas vezes vindas de infância — violência doméstica, abusos sexuais, insatisfação dos pais «que sempre quiseram ter uma menina», etc. — mas, como disse, as consequências das experiências traumáticas são muito bem documentadas e conhecidas, e há tratamentos específicos para estas, que são muito eficazes. Se for o trauma que está na origem do crossdressing, é muito razoável de assumir que, uma vez curadas as consequências do trauma, o «desejo» de crossdressing desapareça ou diminua.

Por vezes, o crossdressing é meramente um escape de uma vida stressante. Não é sequer um fetiche ou uma fantasia sexual, mas está ao mesmo nível de quem pratica desportos radicais para aliviar o stress do dia-a-dia — podemos achar estranho porque é que alguém precisa de arriscar a sua vida a escalar montanhas sem cordas e sem ferramentas, para aliviar o stress, mas a verdade é que a adrenalina é uma droga natural que é viciante e pode aliviar stress do ponto de vista bioquímico. Para este tipo de pessoas que praticam crossdressing como escape, pode a mistura de adrenalina e serotonina libertada durante a sessão de crossdressing aliviar os sintomas do stress. Neste caso, evidentemente, a cura passa por eliminar o stress do dia-a-dia, o que pode implicar uma mudança de hábitos (mudar de emprego, de cidade, etc.) ou, eventualmente, uma substituição da actividade de escape.

Há também casos documentados de pessoas com tendência para a depressão crónica que, em desespero, recorrem ao crossdressing para aumentar os níveis de serotonina. Talvez a escolha do crossdressing seja pouco habitual ou invulgar. No entanto, nestes casos, ao curar a depressão, também deixa de haver necessidade de fazer crossdressing. Isto é frequente nos casos em que pessoas admitem publicamente que «deixaram de ser crossdressers» e que «qualquer pessoa se pode curar deste vício» — e que frequentemente aparecem em sites de propaganda religiosa. Muitas vezes não se tratam de fraudes, mas sim de pessoas que não tinham qualquer disforia de género (apenas pensavam que tinham) — tinham apenas depressões que se curaram através de uma prática espiritual, por exemplo. Os raríssimos casos de pessoas que se «arrependem» de uma transição após a cirurgia (são de facto muito poucos) muitas vezes não tinham qualquer disforia de género, mas sim um misto de experiências traumáticas (que por vezes não transmitiam correctamente aos médicos, talvez por vergonha) e de tendências depressivas, causando um diagnóstico errado.

Finalmente, existem os casos genuinos de disforia de género. Aqui a ciência médica e psicológica tem uma barreira inultrapassável: é que, segundo parece, o que «causa» a disforia de género foi determinado embriologicamente e não é possível de alterar o cérebro bioquimicamente — ou através de treino psicológico — para funcionar de outra forma. A única resposta da ciência médica é: se não podemos alterar o cérebro, podemos alterar o corpo. Nestes casos só a transição é uma solução.

No entanto, há vários graus de disforia de género. Em Portugal esta terapia não é legalmente admitida (embora eticamente talvez o seja), mas em certos países é possível fazer alguma forma ligeira de terapia hormonal para diminuir a intensidade dos sintomas da disforia de género. O indivíduo em questão pode não fazer uma transição de facto — ou seja, continuará a assumir o papel de género correspondente ao corpo biológico com que nasceu — mas os efeitos das hormonas podem equilibrar os sintomas da disforia de género. Em muitos casos, depressões clínicas resistentes à medicação e à terapia podem ser revertidas apenas com uma terapia hormonal ligeira. Este tipo de terapia é frequente igualmente em casos de hipersexualidade, ou seja, pessoas que têm dificuldade em lidar com a sua líbido exageradamente alta (segundo um padrão de normalidade que é meramente estatístico), e que entram em depressão por não conseguirem ter sexo com a frequência que necessitam. Nestes casos, diminuir a líbido artificialmente com terapia hormonal pode eliminar o stress, a ansiedade, ou a depressão causada pela hipersexualidade.

Este tipo de tratamento também parece dar bons resultados a lidar com as consequências da disforia de género; no entanto, como a terapia hormonal acarreta riscos para a saúde, e tem consequências físicas, não é acessível em todos os países. Em Portugal, por norma, a terapia hormonal que conduza a alterações fisiológicas só é aceitável nos casos em que se pretende transitar para o género oposto ao que foi atribuído à nascença — não há indicação clínica para usar a terapia hormonal com fins terapêuticos para tratar disforias de género mais ligeiras.

Outra forma de lidar com a disforia de género é, surpreendentemente, aumentar de intensidade as sessões de crossdressing. Isto pode parecer um pouco estranho, mas nesta abordagem, a pessoa é encorajada a fazer mais sessões de crossdressing, e a obter aceitação por parte de pessoas próximas de si para que esta actividade seja tolerada. Há, pois, uma barreira psicológica a ultrapassar — contar ao cônjuge, aos filhos, à família, aos amigos mais próximos — onde os médicos podem ajudar e dar apoio. Uma vez ultrapassada essa barreira, no entanto, a pessoa não «necessita» de fazer uma transição: o crossdressing, por si só, é um factor de alívio dos sintomas. É como fazer exercício físico para curar a depressão — como o exercício físico liberta serotonina, ajuda sempre a combater a depressão, especialmente nos casos mais ligeiros. Aqui aplica-se o mesmo princípio.

Quando a disforia de género é mais grave, então até pode-se dar o caso inverso: o crossdressing não só não é «satisfatório» como, pelo contrário, é motivo de grande frustração — porque a pessoa reconhece que não é por vestir a roupa de uma mulher (assumindo neste caso a transgenderidade MtF, mas o mesmo se aplica ao caso inverso) que se «torna» numa mulher. Por outras palavras: o cérebro não se deixa enganar facilmente. É preciso bem mais do que isso. Estes indivíduos acabam por abandonar o crossdressing muito cedo no seu percurso, pois não os satisfaz minimamente, ou até tem um efeito negativo: ao ver o seu aspecto físico enquanto vestindo roupas do género oposto, ainda sentem mais intensamente a sua disforia, ao perceber que não se parecem, de todo, com pessoas do género com que se identificam. Ou seja: o crossdressing acaba por lhes expôr o pior que sentem relativamente ao seu corpo.

Segundo as normas e protocolos que regem os cuidados de saúde das pessoas transgénero (WPATH), a abordagem clínica à disforia de género deve seguir o princípio do «tentar curar aquilo que se pode curar». Se a pessoa sofre devido a experiências traumáticas; se sofre devido a repressões e supressões de sentimentos; se sofre devido a problemas com a sua auto-imagem física; se sofre de stress, irritação, ansiedade, ou depressão clínica… mesmo que a causa de todos esses problemas seja efectivamente a disforia de género, primeiro de tudo, vai-se tratar de todas essas perturbações mentais, o que está ao alcance da psiquiatria e da psicologia.

Em muitos casos, o tratamento destas condições pode, por si só, aliviar o sofrimento causado pela disforia de género (caso em que efectivamente a pessoa não sofria de disforia de género, mas esta era apenas uma consequência das outras condições mentais todas). É por isso que os médicos primeiro experimentam curar estes sintomas todos, e ver o que resta.

Noutros casos é preciso validar o grau de intensidade da disforia de género. Os casos mais extremos — a pessoa pensar em suicidar-se se não conseguir fazer a transição — evidentemente são tratados justamente com essa transição. Mas nos restantes casos, pode não ser necessário ir tão longe. Uma pessoa pode eventualmente viver a vida toda com disforia de género, mas aprender a lidar com os seus malefícios, de forma a que não perturbe o seu funcionamento no dia-a-dia. Também há, evidentemente, casos de disforia de género mais graves onde o paciente, pelas mais diversas razões (sociais, familiares, financeiras, clínicas…), não pode fazer a transição. Nesse caso, os especialistas em sexologia clínica podem ajudá-lo a lidar com a disforia de género. Isto é mais ou menos a mesma coisa que ensinar alguém que tenha uma doença incurável a lidar com essa doença. É possível!

Mas, claro, do ponto de vista da ciência médica actual, a única cura para a disforia de género é mesmo a transição.

Conclusão
Em geral, ao olhar para uma pessoa que faz crossdressing, não podemos avaliar as razões pelas quais o faz. Naturalmente, do ponto de vista social, está sempre presente a ideia da crossdresser fetichista, que se veste de mulher para encontrar parceiros sexuais — visto este ser, de facto, o maior grupo de entre os crossdressers — o que, infelizmente, obriga as crossdressers que não sejam fetichistas a enfrentar um estigma social, que é o de serem vistas essencialmente como fetichistas sempre que se vestem do género oposto e estão em espaços públicos (para além de tudo o resto).

Das restantes crossdressers, muitas fazem-no por razões que nada têm a ver com as questões de identidade de género — mas que não têm como objectivo principal o fetiche sexual, ou, se se trata de um fetiche, é um fetiche de objecto (vestir roupas de mulher, comportar-se como uma mulher em público, dá prazer sexual auto-erótico). Em geral, estas pessoas estão mentalmente equilibradas no sentido em que não têm qualquer problema em lidar com a sua identidade e expressão de género.

O terceiro caso, menos frequente, está alegadamente ligado a alterações profundas a nível do funcionamento do cérebro, em que existe, de facto, uma falta de sintonia ou harmonia entre a identidade de género que o cérebro assume como sua, e a do resto do corpo. Esta «falta de sintonia» é vulgarmente conhecida por disforia de género, que pode ser ligeira ou muito grave, e apresentar diversos sintomas. Quando é muito ligeira, pode não ser sintomática (ou seja, a pessoa sente apenas um ligeiro «incómodo» que muitas vezes pode ser ultrapassado praticando crossdressing — ou às vezes nem sequer isso é necessário).

Quanto é mais grave ou mais profunda, o crossdressing assume o papel da expressão de género com que a pessoa se identifica. Mesmo que não se auto-classifique como tal, estamos na presença de alguém que é, sem dúvidas, transgénero — no sentido em que escapa ao heteronormatismo cisgénero. Mais uma vez, cada caso é um caso, e a disforia de género pode apresentar uma série de sintomas, desde a infância mais tenra até à idade adulta, e não é por uma pessoa praticar crossdressing, com mais ou menos regularidade, que é possível aferir o grau de disforia de género que tem.

Nos casos mais sérios, pode surgir uma atitude de rejeição, negação, repressão e supressão. São mecanismos de defesa de um cérebro que está tecnicamente «avariado», no sentido em que não funciona da forma que seria esperado que funcionasse. Alega-se que esta «avaria» pode ter sido condicionada embriologicamente (e não geneticamente) e que, como tal, não é reversível do ponto de vista da ciência neurológica e psicológica. Trata-se de uma alteração permanente. Os mecanismos de defesa ou de compensação são um método empregue pelo cérebro para tentar «compensar» a avaria. Infelizmente, estes métodos podem agravar o problema em vez de o solucionarem: anos ou décadas de supressão e repressão causam alterações profundas ao estado de saúde mental da pessoa em questão, e, mais cedo ou mais tarde, podem surgir outras condições mentais, como a agressividade/ansiedade, a depressão, ou mesmo as tendências suicidas.

Como todos os casos são tão diferentes, estas condições mentais podem surgir mais cedo ou apenas muito mais tarde. Nos casos em que surge muito cedo, como por exemplo na infância, o indivíduo pode receber um tratamento hormonal de supressão da puberdade até atingir a idade adulta. Isto evita que surjam sequer os atributos sexuais secundários até que a pessoa queira ou possa decidir se pretende efectuar a transição para o género com que se identifique ou não. A suspensão da puberdade é um método muito eficaz com excelentes resultados; é evidente que terá de ser complementado com cirurgias, mas a verdade é que o não aparecimento de características sexuais secundárias (ex. no caso MtF, não há aumento de massa muscular, nem engrossamento da voz, não surgem pelos faciais ou corporais, etc.) ajuda a que a transição possa ser feita a doses hormonais menores, com menos efeitos secundários, e com um efeito bastante mais pronunciado. Normalmente, estas pessoas podem levar uma vida futura livre de discriminação com muito mais facilidade, visto que entram já na idade adulta com um corpo fisicamente indistinguível (pelo menos do exterior) de alguém do género com que se identificam.

Quando as manifestações das condições associadas à disforia de género surgem muito mais tarde, depois da puberdade — ou mesmo em idade adulta mais avançada — as dificuldades são maiores, pois na maior parte dos casos os mecanismos de compensação estiveram activos durante mais tempo: a negação e a supressão da disforia de género através de um trabalho consciente faz com que a pessoa procure desesperadamente comportar-se de acordo com o género que lhe foi atribuído: cria uma família, pratica actividades estereotipadas de acordo com o género atribuído, e assim por diante. Esta tentativa de «forçar uma normalidade» vai, naturalmente, criar um aumento de «tensão» — a pessoa em questão está deliberadamente a desempenhar um papel de género com o qual não se identifica, na vã esperança de, ao fazê-lo, procurar «afastar» as emoções associadas à disforia de género. Descrevo esta experiência como «avariar ainda mais um cérebro que já está avariado»: pois está-se a forçar o cérebro a pensar e a sentir de acordo com um condicionamento de género para o qual este (o cérebro) não está «adaptado».

As consequências, pois, são o surgimento de outras perturbações mentais, em grau mais ou menos sério, devido a este mecanismo de compensação. Ou seja, há efectivamente uma pequena distinção entre uma depressão sentida por um adolescente com disforia de género e um adulto. No caso do adolescente, a rejeição do género atribuído é explícita e mais imediata: passa-se relativamente pouco tempo até a criança ou adolescente informar os pais que quer ser uma menina (no caso MtF) ou um menino (no caso FtM). Enquanto não é levado a sério, a pessoa efectivamente pode passar por uma fase de ansiedade e depressão, pois está explicitamente a rejeitar aquilo que os pais, familiares, amigos, professores etc. desejam que seja o seu papel de género. Ou seja, nunca há sequer uma «aceitação» propriamente dita. Há, sim, uma noção de que o papel de género lhe está a ser imposto contra a sua vontade, vontade essa livremente expressa, mas que lhe é negada.

No caso da transgenderidade manifesta na idade adulta, o que acontece é que é a própria pessoa a auto-negar-se a sua condição transgénero. Por outras palavras, não há uma «imposição externa» de ninguém. A disforia de género não é comunicada a ninguém, mas sim negada, suprimida e reprimida. Há uma tentativa constante de forçar a adopção do papel de género atribuído, mesmo que este seja mentalmente intolerável (mas há tantas coisas desagradáveis na vida, esta é apenas mais uma delas…). A disforia de género não só nunca é abertamente assumida, como a própria pessoa procura auto-enganar-se dizendo que não existe. Os desejos de se manifestar de acordo com o género com que se identifica são suprimidos e reprimidos ao ponto de nem sequer se tornarem conscientes, mas sim «enterrados» o mais fundo que for possível, procurando-se desesperadamente a adopção de uma cisgenderidade heteronormativa.

Mais cedo ou mais tarde, no entanto, estes sentimentos/desejos associados à identificação com um género que não é o atribuído à nascença, vão causar outras condições psicopatológicas. Agora já não falamos no desespero, na irritação, na ansiedade, na depressão que um adolescente sente ao ver que os seus desejos são rejeitados externamente pelas pessoas com quem lida. Em vez disso, surgem estas mesmas condições, mas a sua causa foi auto-imposta (bem entendido, na tentativa de «agradar» à sociedade, apresentando um papel de género que é socialmente aceitável), e por isso as manifestações destas condições podem tomar formas muito diferentes das da adolescência — em certo caso, mais graves (porque os mecanismos de supressão e repressão estiveram activos durante décadas e não apenas anos), mas que também podem aparentar ser mais ligeiros (porque é sabido que as crianças e adolescentes podem reagir de forma exagerada aos seus sentimentos e emoções, enquanto que os adultos, regra geral, são melhores a «disfarçar» esses seus sentimentos e emoções, especialmente quando sabem que estes não são socialmente aceitáveis).

Também nestes casos, existem diversas formas de lidar com o problema. Nem todas as pessoas que fazem crossdressing (não-fetichista) apresentam realmente disforia de género. Em muitos casos, felizmente, o crossdressing apenas surge como um mecanismo de compensação ou adaptação para lidar com uma condição psicopatológica que pouco ou nada tem a ver com disforia de género (por exemplo, para alívio de stress). Nestes casos, basta tratar a causa psicológica do problema, que a «necessidade» de crossdressing pode pura e simplesmente deixar de existir. Há de facto muitos casos assim, e cabe realmente aos especialistas desta área identificarem correctamente o problema real, e conduzirem o paciente a um processo de cura apropriado para esse problema. Mesmo que o próprio pense que tem disforia de género, isto pode não ser o caso!

E, finalmente, nem para todos os casos de disforia de género a transição é a única cura possível. Tecnicamente, do ponto de vista clínico, não existem nenhum processo definitivo para «curar» a disforia de género senão o processo de transição. Não há medicamentos nem terapias que permitam reverter a anomalia de funcionamento de um cérebro que não identifica o respectivo corpo como pertencendo ao mesmo género que este — e mesmo que algum dia tais medicamentos/terapias existam (o que é muito pouco provável e altamente implausível), questionar-se-ia a ética de tais tratamentos. Basta dizer que temos, infelizmente, décadas de «experiências quase-científicas» relatadas de épocas recentes, cheias de intolerância para com a transexualidade, em que sabemos que não há forma clínica ou terapêutica que permita «acabar» com a disforia de género — trata-se de um facto cientificamente mais que comprovado. O que se pode, isso sim, é fazer a transição: se não podemos mudar o cérebro, podemos mudar o corpo, e mudar a expressão de género do indivíduo, em termos sociais. É isso que significa que «a transição é a única cura possível»: a única forma de eliminar os sintomas da disforia de género é deixar que o indivíduo se expresse de acordo com o género com que se identifica, que aja e se comporte socialmente como uma pessoa desse género, e que o seu corpo seja modificado, dentro do que está ao alcance da cirurgia plástica, para se parecer o mais possível com o género com que se identifica. Isso, sim, é a única terapêutica que conhecemos que dá resultado — em percentagens bem próximas dos 100% (esta percentagem só não é de 100% porque infelizmente existem alguns poucos e raros casos cujo diagnóstico foi errado à partida).

No entanto, nem todos os casos que apresentam disforia de género podem ou querem seguir pela via da transição. O caso mais óbvio, claro, é o da fluidez de género — em que o indivíduo não se identifica com nenhum dos géneros ou com ambos em simultâneo — e que a transição de um género para o outro não é satisfatória de todo. Embora a condição de fluidez de género seja reconhecida e identificada correctamente pelas equipas de psicologia e psiquiatria, em Portugal, por exemplo, não existe qualquer enquadramento legal para estes indivíduos: a lei portuguesa apenas reconhece dois géneros, e permite a passagem de um género para o outro (com o aval das equipas médicas que fazem o diagnóstico e acompanhamento), mas não se pronuncia quanto àqueles que não se identificam com a ideia de um género binário, e que pretendem se exprimir de acordo com a ausência de género binário.

Menos óbvios são os casos em que a disforia de género não é «muito grave». Na literatura a que tive acesso, a definição de «muito grave» é mais ou menos quando o indivíduo ameaça suicidar-se se não transitar de género (e geralmente num prazo curto). Neste caso estamos literalmente perante uma situação de vida ou de morte. Estes indivíduos quase sempre estão em depressão clínica muito grave com tendências suicidas — independentemente da idade que têm — e não têm a menor dúvida que só a transição lhes pode proporcionar alívio. Não lhes preocupa minimamente as consequências dessa transição (perder a família, os amigos, o emprego, ser discriminado em público, etc.), pois tudo é mais suportável do que continuar a suportar a sua disforia de género. Estes casos são clássicos e comparativamente fáceis de diagnosticar.

Mas noutros casos a disforia de género pode ser «grave a ligeira». O indivíduo em questão pode não apresentar quaisquer tendências suicidas. Pode, no entanto, ter depressões clínicas de longa duração, que sejam recorrentes ou crónicas. Pode sofrer de ansiedade/irritação permanente. Pode ter consequências de traumas, ou da supressão e repressão de sentimentos durante décadas. Nalguns países, estes indivíduos podem ser encaminhados para uma transição «parcial» (por exemplo, através de alguma terapia hormonal com efeitos mais ligeiros e assim mais facilmente revertidos), em que exista algum alívio da disforia de género, e consequente diminuição ou eliminação das restantes condições mentais. Em Portugal, aparentemente, esta via não é possível, mas é sempre possível o aconselhamento psicológico para ajudar a lidar com o problema. Podemos, de certa forma, encarar o apoio psicológico neste caso como o de qualquer doença crónica potencialmente terminal (como, por exemplo, o cancro), em que os médicos sabem que a cura não existe (ou pode não ter sucesso imediato), e que se prepara o paciente, psicologicamente, para «aceitar» a sua condição. O mesmo é possível de fazer para a disforia de género (embora esta tenha cura!): se o paciente não puder efectuar a transição por alguma razão (clínica ou pessoal), os especialistas podem ajudá-lo a lidar com a sua condição, tratar separadamente todas as condições mentais que apresente, e proporcionar-lhe algum alívio. Para estes pacientes, por exemplo, o crossdressing pode ser uma actividade terapêutica! Isto por vezes pode significar explicar a cônjuges, familiares, e talvez até amigos mais próximos, que a pessoa em questão tem uma condição mental «incurável», mas que o crossdressing é uma terapêutica que proporciona algum alívio, pelo que as pessoas que estão mais próximas deste indivíduo devem ser levadas a compreender (por mais estranho que lhes possa parecer!) que esta pode ser a única forma de ajudar a pessoa a deixar de estar deprimida, agressiva, irritada, ansiosa, etc.

Claro que, mais uma vez, isto não se aplica a todos os casos (quanto mais grave for a disforia de género, em geral menos «satisfação» é obtida pelo crossdressing, que é visto apenas como um «substituto» muito fraco daquilo que a pessoa efectivamente pretende, que é a transição completa). No entanto, é um ponto importante a ter em conta: que para muitas pessoas com disforia de género (mesmo que ligeira), o crossdressing pode ser apenas uma forma de terapia (invulgar).

No meu caso, fiquei evidentemente surpreendida quando a minha psicóloga me disse para fazer mais crossdressing, porque receava que isso fosse agravar o meu problema. Mas como aparentemente o problema principal que tenho é a falta de serotonina no cérebro — o que causa a depressão clínica mais grave — e o crossdressing é a única coisa que aparentemente mantém os níveis de serotonina «normais», então, para combater a depressão, tenho de fazer mais crossdressing. Parece óbvio quando analizado friamente e com alguma racionalidade, mas não deixa, para mim, de me parecer muito esquisito. E sei também que terei imensa dificuldade em explicar isto a outra pessoas que não seja a minha mulher. Até porque a experiência que tenho mostra-me que nem sequer a maioria das crossdressers — que praticam crossdressing por razões completamente diferentes — não conseguem compreender o problema…

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Rose Bleue
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Anuncio Re: Os malefícios do crossdressing - Pate 03

em Qua 24 Out 2018, 17:13
Eu lembro deste artigo em um site sobre crossdressing de portugal.

O texto é meio "rebuscado" e muito "técnico". É bem difícil de compreender, e sua extensividade acaba sendo meio desgastante pra quem quer ler até o final.

Mas ainda assim, das partes que li (fui dando pulos rsrs), achei bem esclarecedor. Me ajudou a me entender bastante.

Gostaria contudo, de ver algum texto abordando a questão da fluidez de gênero algum dia. Até hoje não achei nada satisfatório. =|

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Aprendendo a ser como sou sem seguir estereótipos forçados, tanto pra lá, quanto pra cá.
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stefanyemian
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Anuncio Re: Os malefícios do crossdressing - Pate 03

em Sex 26 Out 2018, 17:53
Rose Bleue escreveu:...Gostaria contudo, de ver algum texto abordando a questão da fluidez de gênero algum dia. Até hoje não achei nada satisfatório. =|

Rose, estou procurando, mas se vc achar algo, poste como artigo, ou se quiser me envie que eu posto aqui, são temas interessantes...

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Patricia Campi
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Anuncio Re: Os malefícios do crossdressing - Pate 03

em Sex 26 Out 2018, 20:45
Não sei se ajuda, mas eu gosto desse aqui:

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Só para esclarecer, a Samantha Oliver se considera gênero fluído. Wink

Beijos

Patricia
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